“Tá dando risada por quê?”: juiz repreende testemunha após confundir deformidade facial com deboche
O juiz Cristiano Cesar Ceolin, da 1ª Vara de Mairiporã, na Grande São Paulo, repreendeu uma testemunha durante audiência após interpretar como risada uma deformidade facial. O episódio ocorreu em maio de 2024, mas a gravação só veio a público nesta semana.
Logo no início do depoimento por videoconferência, o magistrado questionou a postura da testemunha: “Tá dando risada por quê? Tem alguma coisa de engraçado acontecendo por aqui? A senhora está achando graça de alguma coisa?”. Antes disso, ele já havia advertido a mulher por dificuldades na conexão ao confirmar sua identidade.
A testemunha era a empregada doméstica Fátima Francisca do Rosário, de 61 anos. Ela depunha em uma ação movida por parentes de sua ex-patroa, Ondina Tognini, de 94 anos, que contestavam a doação de bens a pessoas fora da família, alegando coação e incapacidade mental.
“Eu não tô dando risada”, respondeu Fátima. Posteriormente, a defesa apresentou laudo médico que atesta biprotusão maxilar e má oclusão dental de classe 3 — condições que impedem o fechamento adequado da boca e podem dar a impressão de sorriso permanente.
Durante o depoimento, Fátima afirmou que a ex-patroa demonstrava lucidez quando trabalhou em sua casa. Anos depois, no entanto, Ondina recebeu diagnóstico de Alzheimer, fato que motivou o pedido de interdição de bens por um sobrinho-neto.
Ao final da audiência, o juiz registrou que a testemunha teria faltado com a verdade e determinou a abertura de inquérito pela Polícia Civil do Estado de São Paulo para apurar suposto falso testemunho.
A defesa pediu a suspeição do magistrado, alegando animosidade e classificando a conduta como “desumanidade” e “elitismo”. O próprio juiz negou o pedido.
Em janeiro deste ano, porém, o Ministério Público do Estado de São Paulo solicitou o arquivamento do inquérito por falta de provas. A Promotoria destacou que o depoimento de um tabelião corroborou a versão apresentada por Fátima sobre as doações. O juiz concordou com o parecer e determinou o arquivamento do caso.
