CensoTrans de Palmas revela alta incidência de violência contra pessoas trans e não binárias; Prefeitura anuncia medidas
A Prefeitura de Palmas apresentou na noite de quarta-feira (28), no Espaço Cultural José Gomes Sobrinho, os dados preliminares do CensoTrans — levantamento voltado ao mapeamento das condições de vida da população transexual e não binária no município. Das 76 pessoas que responderam ao formulário até segunda-feira (26), 85,3% relataram já ter sofrido algum tipo de violência ou discriminação na capital.
A violência verbal é a mais frequente, apontada por 65,3% das pessoas, ocorrendo majoritariamente em espaços públicos ou privados (64%). Também foram registradas violência psicológica (44%), física (24%) e sexual (21,3%). O estudo indica que 81,3% dos participantes não se sentem seguros de forma constante na cidade e 70,7% não se sentem seguros para denunciar as violências sofridas. Além disso, 77,4% afirmaram não considerar o núcleo familiar como uma rede de apoio plena.

O CensoTrans, desenvolvido sem custos diretos e com apoio de organizações e ativistas locais, segue aberto para participação. Segundo a Prefeitura, os dados mostram perfil escolar relativamente elevado — mais de 60% concluíram o Ensino Médio ou cursaram Ensino Superior/pós-graduação —, mas também apontam que 36% têm trajetória educacional interrompida, reflexo de barreiras estruturais e discriminação.
No campo do trabalho e renda, 46,1% estão no mercado formal, mas 61,3% vivem com até um salário-mínimo ou sem renda. Em saúde, pouco mais da metade relatou conseguir acesso quando necessário, enquanto quase 50% enfrentam dificuldades ou impossibilidade de atendimento. O uso dos serviços é majoritariamente emergencial: 51,4% procuram atendimento apenas em situações de urgência, indicando baixa vinculação à atenção básica.
Em entrevista, o professor Cássio Alexandre Bernardelli, homem trans e docente da rede pública, ressaltou a importância de reforçar políticas que alcancem quem mais precisa. O titular da Secretaria Extraordinária de Igualdade Racial e Direitos Humanos (Seirdh), José Eduardo de Azevedo, destacou avanços na articulação institucional, incluindo participação na elaboração do novo Procedimento Operacional Padrão (POP) para atendimento de pessoas LGBT pela Guarda Metropolitana.
Encaminhamentos
A Seirdh apresentou um conjunto de medidas de curto, médio e longo prazos para responder às demandas identificadas. Entre os encaminhamentos anunciados estão:
– Publicação de Portaria Municipal que obrigue o respeito e o uso do nome social;
– Emissão de Nota Técnica intersecretarial sobre atendimento à população trans;
– Criação de um Canal de Escuta Trans (formulário de registro de atendimento);
– Instituição de um Grupo de Trabalho Intersecretarial Trans (GT Trans);
– Realização de mutirão informativo sobre nome social e retificação de registro;
– Implantação de formação rápida de servidores em modelo multiplicador (cascata);
– Fortalecimento do Ambulatório Trans com agenda e fluxos definidos;
– Instituição de rodas de apoio mensais em espaços públicos;
– Articulação de ações de empregabilidade com entidades e empresas parceiras;
– Inserção das demandas da população trans no planejamento público municipal.
A Prefeitura reforça que as iniciativas visam reduzir barreiras de acesso, aumentar a confiança institucional e promover a proteção e inclusão da população trans e não binária em Palmas.
