Interesse dos EUA na Groenlândia mira controle do Ártico e contenção da China, avaliam especialistas
O interesse dos Estados Unidos em invadir e anexar a Groenlândia está diretamente ligado à tentativa de controlar rotas marítimas estratégicas e dificultar o comércio da China, segundo avaliam especialistas em relações internacionais e geopolítica.
O Oceano Ártico conecta Ásia, Europa e América do Norte e tende a ganhar ainda mais relevância com o avanço das mudanças climáticas. O derretimento das calotas polares pode reduzir significativamente o custo do frete marítimo nas próximas décadas, encurtando o trajeto entre a China e os mercados europeus.
Em 2018, a China passou a se definir oficialmente como um país “quase-ártico” e, desde então, vem ampliando sua presença na região em cooperação com a Rússia. Para analistas, esse movimento acendeu um alerta estratégico em Washington.

O major-general português Agostinho Costa, especialista em segurança e geopolítica, explica que os EUA já exercem amplo controle sobre o Pacífico e o Atlântico, mas têm presença limitada no Ártico. “O objetivo é bloquear a China. Falta aos Estados Unidos controlar o Ártico, um oceano que se tornará central para o comércio global”, avalia.
Dados de observação por satélite indicam que o gelo marinho do Ártico vem diminuindo cerca de 13% por década. Projeções do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas apontam que a região pode ficar praticamente livre de gelo entre 2050 e 2070, ampliando o uso da chamada Rota Marítima do Norte.
O cientista político Ali Ramos ressalta que essa rota pode reduzir em mais de um terço o custo do transporte marítimo entre a Ásia e a Europa. Segundo ele, a Rússia possui mais da metade do litoral do Ártico e uma infraestrutura militar muito superior à da Otan na região, o que aumenta sua capacidade de influência econômica e diplomática.
Documentos estratégicos do Departamento de Defesa dos EUA já apontam o Ártico como área-chave para conter a expansão russa e chinesa. A crescente cooperação entre Moscou e Pequim, somada à adesão de novos países à Otan, reforçou a disputa geopolítica pelo controle da região.
Com cerca de 56 mil habitantes, a Groenlândia é um território semiautônomo do Dinamarca. Desde o início de seu segundo mandato, o presidente Donald Trump tem reiterado a intenção de controlar a ilha, alegando motivos de segurança nacional e citando a presença de navios russos e chineses no entorno do Ártico.
Para Agostinho Costa, a postura americana resgata práticas de séculos passados. “É uma lógica de controle dos mares, semelhante à adotada nos períodos de expansão imperial. Trata-se de uma estratégia de poder baseada no domínio das rotas marítimas globais”, conclui.
