Polícia Científica investiga casos de intoxicação por metanol e detalha análise laboratorial
A Polícia Científica está mobilizada em diferentes frentes para confirmar ou descartar casos de intoxicação por metanol no estado, substância altamente tóxica que tem sido encontrada em bebidas adulteradas. O trabalho envolve a análise de bebidas suspeitas e exames toxicológicos de amostras de sangue e tecidos das vítimas.
O alerta foi acionado após a Secretaria Estadual de Saúde (SES) confirmar quatro casos suspeitos, que incluem duas mortes (uma em Lajedo e outra em João Alfredo), uma pessoa que ficou cega (Lajedo) e uma mulher internada (Olinda). A Polícia Civil investiga um quinto caso, também em Lajedo.
O Perigo Invisível do Metanol
O metanol é um líquido transparente com odor discreto, de uso exclusivo industrial, e não deve estar presente em bebidas alcoólicas. Segundo peritos criminais, a adulteração é quase impossível de ser identificada visualmente, pois a substância se mistura facilmente sem alterar cor ou cheiro. A toxicidade é tão alta que seu manuseio exige equipamentos de proteção, mesmo em laboratório.
“O metanol em momento nenhum deve ser utilizado para consumo humano. Então, ele não deve estar presente em nenhuma bebida,” reforça o perito criminal Rafael de Arruda.
Como a Contaminação é Detectada
O trabalho da Polícia Científica começa com a coleta de amostras do produto suspeito (como garrafas de uísque apreendidas) ou do sangue das vítimas. O material é então analisado em um equipamento especializado: o cromatógrafo gasoso.
Análise Rápida: O equipamento transforma amostras líquidas em vapores. A partir do ponto de ebulição de cada elemento, o cromatógrafo revela as substâncias presentes.
Confirmação: O exame leva cerca de 15 minutos. “Quando a gente prepara essa amostra, coloca no cromatógrafo gasoso, e aparece o metanol, é porque houve a contaminação proposital,” explica o perito Rafael de Arruda.
Os Efeitos Letais do Metanol no Corpo
A ingestão de bebida adulterada desencadeia um processo tóxico perigoso, que pode ter sintomas retardados:
Metabolismo em Risco: O metanol e o álcool (etanol) são metabolizados pela mesma via no fígado. O etanol é processado primeiro, o que retarda a metabolização do metanol por horas.
Formação da Toxina: Ao ser metabolizado, o metanol se transforma em ácido fórmico, uma substância altamente tóxica. O acúmulo desse ácido provoca acidose metabólica severa e lesão direta a órgãos.
Consequências: Em pequenas quantidades, o ácido fórmico causa danos especialmente ao nervo óptico, podendo levar à cegueira, falência múltipla dos órgãos e, consequentemente, à morte. Os sintomas iniciais podem se manifestar como uma “ressaca desproporcional”.
No ambiente hospitalar, uma das formas de tratamento emergencial é manter o fígado ocupado metabolizando álcool para dar tempo de o metanol ser retirado do corpo por meio de diálise, antes que se transforme em ácido fórmico.
Exames nas Vítimas Fatais
O médico legista Mauro Catunda explicou que a necrópsia (exame tanatoscópico) por si só não é conclusiva em casos de intoxicação por metanol. O objetivo inicial do exame é descartar outras causas de morte. Para a confirmação, é essencial o resultado do laboratório de toxicologia:
“Para a gente poder confirmar, vai ser preciso ter uma forte suspeita clínica e encontrar essa substância [metanol ou seus metabólitos] nas amostras de sangue,” concluiu Catunda.
O intenso trabalho da Polícia Científica é crucial para fornecer a prova técnica que sustenta a investigação da Polícia Civil sobre a origem da adulteração.
