UM OLHAR NO TEMPO
Do silêncio da minha janela
Debrucei o olhar sobre o tempo,
Descortinei o palco do passado e,
A vida passou lenta e preguiçosa
Diante das retinas embaçadas
Que se escondiam atrás dos óculos.
A minha mente cansada, voou leve
Como um colibri,
Levou-me aos idos da minha juventude
Que se perderam ao longo do caminho.
Vi postar à minha frente, as doces lembranças
Dos tempos de moça nova, em que sonhava
O sonho dourado dos amores impossíveis;
Em que embriagava os homens,
Com a minha beleza virgem rampeira;
Em que caia nos braços dos deuses irresistíveis,
Que tantas vezes viraram meu coração às avessas.
De repente, um choque desgoverna meu coração,
Que já tonteante, vislumbra o ocaso da vida.
É a lembrança daquele que foi de todos o mais belo,
O mais amado, o mais desejado.
Por um instante levitei sobre as asas da reminiscência e,
Bebi no cálice dos meus ais, a doçura dos seus beijos,
A ternura do seu abraço, a paz das suas palavras,
O calor ardente do seu corpo, todo meu...
Tanta vida perdida nos labirintos da memória...
Desviei o pensamento, pois, aquele não era momento
De se chorar lágrimas de saudade.
Era um momento de contemplação da vida.
Pensei meu rosto marcado pelos anos;
Olhei minhas mãos trêmulas agasalhadas no portal;
Revivi meus filhos perdidos no mundo
Em busca dos seus destinos...
Senti o peso da solidão... sonhar já não tem tanta graça.
A morte parece preparar o mais caloroso de todos os encontros e,
Juntas saborearemos a eternidade.
Mas, antes que ela chegue, resta-me tempo e lucidez para reviver
Os prazeres que a vida me ofertou, a relembrar as sementes de
Dignidade que plantei;
Das lutas intermináveis, umas bem sucedidas,
Outras nem tanto...
E, uma voz dentro de mim, fez desabrochar
O sorriso preso em minha alma:
Maria, tu és a criatura mais importante do mundo! És única!
Meu netinho apontou na esquina,
trazia na sua pressa, um abraço, um beijo
E um pedido irresistível: - Vovó, quero bolo!
Um sorriso contaminou meus lábios,
A alegria afagou todos os meus poros;
A saudade, saiu em desatino, para paragens distantes.
Voltei para a cozinha,
Fui preparar o lanche de Marquinhos.
Naquele momento eu era a mulher mais nova do mundo.
O universo era ínfimo diante da grandeza do ser que inundava
O oceano do meu existir.
Veja só que engraçado, a beleza da vida está nos pequenos gestos.
A eternidade é do tamanho de um abraço.
A essência da felicidade é ser útil,
Assim como o mais nobre dos sentimentos é o amor.
Aí está o sentido mais puro da vida.
Foto: Divulgação
Fonte: Dourival Santiago
Postador: Dourival Santiago