Elogios à Loucura
Se em minha casa não houvessem muros
E as noites não abrigassem gatunos.
Se nas ruas não trilhassem os insanos,
E se as portas não tivessem lacre.
Se cada um quisesse apenas o que é seu.
E ainda dividisse o pão com o faminto.
Se a América do sul fosse independente,
E se nas suas praias só houvesse sol.
Se as dores não fossem as cores de Ipanema
E se os arrastões fossem de alegria.
Se as favelas fossem pequenas aldeias,
De límpida e feliz convivência.
Se o amor fosse geral,
E povoasse em todos os corações.
Se não houvesse ódio e nem rancor
E se a paz fosse reinante.
Há se o natal não fosse um dia
E o carnaval fosse um mês!
Se o homem apenas nascesse,
Se a morte fosse uma ilusão
E se a vida fosse para sempre!
Se os homens pudessem voltar dos caminhos,
Se houvesse sempre uma nova estrada
Ou se pudesse encontrar uma nova chegada.
Se esta idéia fosse realidade,
Se a minha mente fosse sã,
Se o mundo fosse melhor,
Se as lágrimas não enchessem rios,
Se a vida fosse um mar
Eu não seria apenas delírio.
Sou louco, eu sei,
Amo o que não existe,
Reputo o trivial.
Reinvento o que é normal.
Viro as costas
Para os paradigmas.
Neste mundo de tão obvias fragilidades
E ao mesmo tempo tão real e tão misterioso,
Felizmente cabe minhas insanidades
De elogiar a loucura de pensar.
Sou um caminho cheio de encruzilhadas.
Ou um louco sem vida e sem nada.
Dourival Santiago
Escritor/Dramaturgo
Membro da Academia Tocantinense de Letras
Foto: foto de divulgação
Fonte: Dourival Santiago
Postador: Dourival Santiago