Copo de Vidro
Postada em: 04/01/2012 ás 12:35:48                   Link:
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Ele era um cara que gostava de Whisky. Levava a sério o significado gaélico da palavra – água da vida. Era um amante da arte dos coquetéis. Inclinava-se a pesquisar e desenvolver em sua laboratório/cozinha, os mais diversos tipos de misturas - e nunca faltavam as mais diversas ideias para suas combinações.

Fazia suas doses individuais com gelo e whisky, guaraná e whisky, limão e whisky, água de coco e whisky, suco de limão e whisky ou com whisky e whisky.

A mãe via no filho um desperdício de dinheiro. E também um desperdício de sono por parte dela, pelas madrugadas barulhentas quando ele chegava. E também um desperdício de saliva e palavras pelas brigas e broncas nas manhãs seguintes.

O gosto por essa arte estava tornando-se incontrolável; e no final, destrutivo. Sempre a busca de mais e mais.

Namorada não tinha mais. Não conseguia ficar sóbrio a tempo de ser romântico, ou de chegar aos ‘finalmentes’.

Decidiu participar de um grupo local de autoajuda – iria partilhar este problema com outros que também tinham como amante esta arte.

Descobriu um novo mundo, encheu-se de esperanças. Percebeu o que ele onde ele achava arte, agora só notava um vício. Isso foi um choque. Só agora via que essa arte tinha um toque de negra, uma arte-oculta.

Mesmo assim, permanecia com esperanças. As reuniões tinham lhe presenteado com novos olhos. Porém sentia um vazio em seu interior. E as pancadas de volição doíam. Era forçado a aguentar. Não conseguia ver um copo de vidro, mesmo que vazio, que sua boca espumava de desejo.

Mas agora tudo estava diferente: a mãe, a família, o emprego, os novos amigos e agora até uma namorada. Tudo estava dando certo, mas por que essa cobiça em ficar buscando em sua mente, fragmentos do sabor de suas misturas?

Um dia, saiu sozinho. Estava noite fria e nublada. Andou pela rua sem rumo. Começou a chover.

Refugiou-se na porta de um caluje. Pediu permissão para entrar; fora concedida. Quando deixou o casaco na primeira cadeira, virou o corpo para o interior do recipiente, ficou pasmo: era um bar, e com uma coleção incrível de bebidas. O lar das súcias.

Sua mente agitava-se, tudo rodava. Nada fazia sentido. Pegou-se concentrando apenas em pedir uma dose de Natu Nobilis. Pegou. Não conseguia mais se lembrar do gosto, do sabor, do prazer. Saboreou. Em um instante, sua mente se desvaneceu. Foi como se começasse a escutar uma música clássica, seguida de um jazz. Uma Symph No. 2. Depois dessa, vieram outras.

Quando acordou, estava em um hospital. A única coisa que conseguia sentir era sua cabeça doendo muito e uma mangueirinha que saída de se pulso e ligava-o a bolsa transparente erguida, com algum líquido amarelado. A única coisa que conseguia lembrar-se era de que havia quebrado o seu próprio pacto de sobriedade. A única coisa que conseguia pensar era que tinha voltado ao início e que tinha entregado-se a uma recaída. A única coisa que notou foi que não havia ninguém naquele quarto de hospital, com exceção de um homem com a perna enfaixada que ressonava no outro canto.

Pensou: – “Fui vencido por um copo de vidro”.

Descobriu um novo mundo, encheu-se de esperanças – e afogou-se.

Para os familiares, ele foi uma quebra de expectativa. Para a namorada, um cara que não segue o que diz, e está destinado ao fracasso. Para os novos amigos, apenas um cara que estava tentando mudar.

Mas a mãe era diferente, ele via com olhos de fotógrafos. Ela não procurava entender o que via de primeira, o tema que estava exposto, o óbvio. Ao contrário, ela buscava compreender outros ângulos, outras formas, outras cores. Antes de julgar, ela conseguia ver um ser humano que estava sujeito a errar, e sobre tudo a tentar novamente.

Buscou-o. Cuidou e zelou dele. E por fim falou: “tente novamente, só existe superação se antes vim a dificuldade”.

(Mais textos em http://paulohenriquelima.tumblr.com/)


Foto: Paulo Henrique Lima           Fonte: http://paulohenriquelima.tumblr.com/post/15183588930/copo-de-vidro           Postador: Paulo Henrique Lima


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