Eu amo o cerrado. Mas também tenho uma paixão meio bossa-nova/rock’n roll com os centros urbanos. São os detalhes que a maioria despreza que me chama a atenção. As calçadas velhas, onde parece haver um charme comparado a um cara que acaba de acordar, com a barba por fazer. Também tem as poucas e sobreviventes árvores que, onde crescem e sobrevivem, fazem rachaduras no concreto.
Mas, uma minúcia que gosto de ficar imaginando e viajando em pensamentos são as janelas dos grandes edifícios. Aqueles vidros negros e espelhados, que refletem tudo o que tem, tornando-se belos, com um ar medieval de quase nobre, e um ar moderno de quase executivo.
Aqueles que você olhando de longe, nunca vê o que está acontecendo dentro das salas empresariais. Mas, ao contrário, quem está do lado de dentro da janela, enxerga tudo o que está acontecendo do lado de fora. Dando um ar de controle de privacidade.
Assim como os edifícios, temos nossas janelas espelhadas que os gestos expressam belos por fora, mas ninguém faz a mínima idéia do que está acontecendo do lado de dentro.
Podemos refletir os céus azuis, refletir o que a sociedade e os outros desejam ver. Pois o vidro não exige que sempre sejamos claros e transparentes para com os outros.
Mas, existe uma só forma de enxergar o lado de dentro que poucos conhecem, ou se conhecem, não dão o crédito necessário: se você aproximar bastante perto do vidro, poderá ver o que está acontecendo lá dentro. Mas só poderá ver se deixar a sua sombra banhar a parte do vidro em que vai olhar. Pois é somente um truque de luzes.
Agora, se você for uma pessoa desconhecida e alguém perceber que você está com a cara na janela, olhando bem de perto, como que espiando, essa pessoa irá parar de fazer o que quer que esteja fazendo.
Agora, existe outra categoria de pessoas. São aquelas que você permite que se aproxime do seu espelho negro, que olhe e espie de perto e, quando você percebe que ele está te olhando através da janela, em vez de você achar ruim, nasce um sorriso no seu rosto pela surpresa. Depois, convida-o para entrar em sua íntima sala.
Esses tipos de pessoa você pode chamar de grande amigo, aquele que você não tem vergonha de mostrar o que está acontecendo dentro da sala da sua vida. Aquele que você permite que encoste os olhos bem perto do vidro.
Eu quero ser esse tipo de pessoa. Até por que gosto de soprar meu hálito no vidro e desenhar com a umidade, caretas e carinhas felizes com o dedo. Mas também por sentir que o dono da sala confia em você, que deseja que você veja o que está acontecendo. Te convida e fala, com um sorriso, para não reparar na bagunça.
“Só você consegue ver a tristeza em mim, quando todos os outros vêem sorrisos”. Olhe pelo vidro e veja a pessoa que está lá dentro.
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Foto: Fonte: Postador: Paulo Henrique Lima