Quando Michael Jackson veio ao Rio de Janeiro e pagou uma fortuna para poder subir o Morro e foi escoltado por bandidos com metralhadoras e outros aparatos de guerra, como donos do pedaço, pensei que aquilo era coisa do passado que só acontecia em países do terceiro Mundo. Ledo engano. Estas mesmas situações continuam acontecendo dia após dia nessa terrinha chamada Brasil.
Naquela oportunidade o Rio de Janeiro que irá sediar uma Final de Copa do Mundo e uma Olimpíada da Era Moderna foi desnudo nas suas entranhas e mostrou que a Garota de Ipanema desfilou nas Praias de Copacabana, ao som da música de Tom e Vinícius de Moraes para entreter os gringos na grande área da beleza para que eles não vissem por trás dos arranha-céus da orla, os morros com suas favelas e seus problemas.
O gringo e nós outros não subíamos lá, por que as mulatas desciam o morro sem lata d’água na cabeça, mas, com adereços de penas de pavão para nos encantar na Sapucaí. O profano das suas poucas roupas vedava os nossos olhos para olharmos para o alto onde o barracão de zinco sem telhado tinha o chão salpicado de estrelas pela luz da lua e era considerado o bangalô daquela gente pregada nas encostas íngremes da falta de atenção pela burguesia.
Ali, a Amélia nasce uma após outra para ser a mulher de verdade e ainda colocam no mundo, herdeiros da falta de sonhos e aprendizes de coisa nenhuma. Enquanto ela e seus rebentos pouco descem, o que sobe até elas, levado por seus protetores, é na maioria das vezes, objetos de origem duvidosa. Detalhe que pouco importa para quem vive em alto risco sempre e carente de tudo a vida toda.
A periferia da cidade foi apertando o cerco, espremendo a Cidade Maravilhosa entre os morros e o mar, ganhando terreno, conquistando territórios e paulatinamente foram criados vários estados dentro do Estado do Rio de Janeiro. Todos com Leis próprias e ai de quem não as cumpra, é o alerta de sempre.
A força desses estados foi crescendo tanto que se entremeou na política, na polícia, nas instituições e nas classes A, B e C, com poder persuasão de fazer inveja a Máfia Siciliana. Utilizando como arma letal a corrupção, não foi difícil se infiltrar nos Três Poderes do Estado, corroendo suas bases e mostrando muita podridão em suas vísceras.
Algo teria que ser feito para reconquistar estes estados, dar tranqüilidade às pessoas de bem, dar oportunidades de emprego e vida decente além do livre acesso no ir e vir aonde quer que seja de seus moradores, pois muitos são oprimidos pelas forças antagônicas da Lei.
Uma Copa do Mundo e uma Olimpíada jamais poderão ser realizadas numa cidade sitiada e ameaçadas por traficantes de várias facções.
A criação das UPPs foi a maneira correta que os Governos legítimos encontraram para minar as forças cada vez mais crescentes nesses estados. Para criá-las e instalá-las o Estado muitas vezes sentiu na carne a fragilidade de muitos das suas fileiras que se deixaram corromper ao longo de décadas e que agora careciam ser expurgados de corporações importantes para dar crédito necessário nas operações de retomada.
Muitos deles foram parar atrás das grades para servirem de exemplo e certeza à população de que a luta era para valer.
Nas últimas horas o Brasil e o Mundo inteiro estão presenciando verdadeiras operações de guerra nas barras da saia do Rio de Janeiro, para a reconquista de territórios que o Estado, na sua inércia de anos, deixou ser tomado por quem jamais poderia ser: a marginalidade.
Graças a Deus pouco sangue foi derramado até agora, mas, o que mais me dói é ver uma solenidade pública no sovaco de uma favela protagonizada pelas forças de repressão, hastear, como de forma heróica, o Pavilhão Nacional e a Bandeira do Estado do Rio de Janeiro pela retomada de um pedaço de terra que acreditei ser Brasil.
Como explicar para os gringos que estamos reconquistando a nossa própria terra? Como explicar que durante anos o Estado fechou os olhos para outros estados serem criados nas nossas barbas?
Ainda bem que esses estados não deram o Grito de Independência antes, pois, eles foram independentes por séculos que jamais pensaram ser preciso gritar pela independência.
O momento é de parabenizar aos que planejaram esta retomada desta parte do território nacional e principalmente aos que estão na linha de frente sujeitos a tombarem como heróis de uma causa que Governos e Governos viraram as costas, enquanto o Pavilhão Nacional tremula no alto do morro de vergonha pelo que não fizeram antes por esta gente que vive igual mocó na serra, sem assistência nenhuma a mercê do tráfico e suas conseqüências.
Deixaram criar o estado dentro do Estado e muito território ainda está fora de controle.
Até quando?
PSO. 13/11/11
Foto: Divulgação
Fonte: Por Ademir Rêgo - Da Redação do SURGIU
Postador: surgiu.com (abr)