Goebbels: narcisista, perturbado, cruel e dependente de Hitler

Está ali, claro, o arquiteto da propaganda nazista e a voz de Adolf Hitler, de quem era indissociável

Postada em: 05/05/2014 17h07m
Um megalômano, não um lunático. Um obsessivo narcisista, não um símbolo de competência e reconhecimento. Assim é o Joseph Goebbels que emerge das 800 páginas escritas pelo historiador alemão Peter Longerich em Joseph Goebbels, uma Biografia, cuja edição brasileira a editora Objetiva lançou recentemente.

Está ali, claro, o arquiteto da propaganda nazista e a voz de Adolf Hitler, de quem era indissociável. Reafirma-se o homem arrivista e cruel, antissemita assumido (“Odeio o judeu pelo instinto e pela razão”) e desumanamente violento ao defender o extermínio (“Comina-se aos judeus uma pena sem dúvida bárbara, mas eles a merecem”). Também não é a primeira biografia de Goebbels (o alemão Ralf Georg Reuth e os britânicos David Irving e Roger Manvell escreveram outras, e os próprios diários tiveram partes consideradas publicadas em mais de um volume).

Mas Longerich esboça nesta nova biografia um Goebbels bem diferente do poderoso homem do regime que o próprio Goebbels se propagandeou. Surpresa: ao contrário do que se imagina, ele era alijado das principais decisões políticas e militares do Führer. Em boa parte de sua trajetória política no partido nazista, foi usado e abusado de infinita lealdade, além de pouco respeitado pelo próprio Hitler. Não era um conselheiro político de confiança, e sim apenas o chefe de propaganda do ditador.

Longerich mostra que na vida de Goebbels se amalgamavam erros e humilhações, apesar de ser o mais brilhante e eloquente integrante do séquito de bajuladores do ditador. Goebbels viu, por exemplo, sua nomeação para a direção-geral de Propaganda ser procrastinada em 1929. Uma vez conseguida, a nomeação não chegou com os prometidos plenos poderes. Mais: Magda Goebbels, sua mulher, foi amiga pessoal e hóspede de Hitler e, com este, passava semanas sozinha (!). Goebbels engoliu o ciúme por medo e estratégia – o triângulo lhe prometia uma influência inimaginável sobre o chefe.

No livro, Longerich conclui: Goebbels sofria de um grave transtorno de personalidade. Buscava de forma extrema o reconhecimento por parte de outras pessoas. Tinha compulsão à grandeza e ao narcisismo. Tentou compensar, com seu trabalho, a deficiência física (provinda de uma doença da medula óssea em sua infância) e origem em um opressivo ambiente pequeno-burguês. Ele sabia que não encarnava o que julgava ser o modelo ideal do alemão – um gigante atlético com os olhos de safira e cabelos de ouro.

Para chegar a tais conclusões, o historiador recorreu aos 32 volumes que compõem o diário de Goebbels. Em suas anotações de 1924 até o seu suicídio, em 1945, o político registrou pensamentos, observações e acontecimentos, escrevendo assim uma cronologia do nazismo por meio de uma ótica pessoal. O diário foi um presente de Else Janke, sua namorada, uma professora primária filha de mãe judia (algo que o atormentava).

As histórias contidas nas anotações foram então cotejadas com jornais e relatórios de opositores da época. Em outras palavras, o biógrafo usa os diários de Goebbels e seu autorretrato para simultaneamente questioná-los.

Escreve Longerich: “Uma análise mais cuidadosa mostra que a grande quantidade de textos que ele compôs sobre si e a abundância do material com que o aparato de propaganda procurou documentar sua obra contêm, surpreendentemente, muitos pontos de partida para a desconstrução do autorretrato concebido por Goebbels.”


Três papéis

A biografia mostra Goebbels em três diferentes papéis: primeiro, o escritor e intelectual frustrado, convertido em agitador do movimento nazista; segundo, o ministro da Propaganda, dedicado a dar uma orientação coerente e unificada à mídia, à vida cultural e à opinião pública do Terceiro Reich; terceiro e último, o propagandista de guerra e protagonista da chamada guerra total.

Como o próprio biógrafo compara, é como se saíssemos de uma pessoa que preferia se apresentar em casaco de couro proletário para depois vestir ternos escolhidos a dedo e, por fim, exibir-se constantemente com o uniforme do partido, por mais que este realçasse sua prejudicada aparência física.

A porta da entrada da biografia dá-se no ano de 1923. Ali aparecia um Goebbels fracassado e desesperado. Apesar do título de doutor, seu plano de ter um papel destacado, como jornalista ou escritor, mostrava-se furado. Faltava-lhe uma mais refinada cultura burguesa para reorganizar o panorama intelectual alemão – desde o início o homem pensava alto.

O engajamento no movimento nacional-socialista salvou-lhe a alma e o tirou da depressão. Nascido na Renânia, região predominantemente católica, Goebbels se afastou da religião desde cedo, e o nacional-socialismo se tornou para ele um substituto da religião. Seu novo redentor? Adolfo Hitler, claro.

O partido e Hitler propiciaram-lhe a ascensão social e o reconhecimento que ele tanto esperava. Assim ele se tornaria o mais leal adepto do Führer e do nazismo. Nessa fixação, assumiu o controle sobre todos os âmbitos da cultura – do teatro ao cinema, da literatura à música.

Encarregado de moldar e irradiar a mensagem nazista, Goebbels ascendeu rapidamente no partido, sobretudo depois de idealizar a queima de livros de autores considerados “subversivos” em praça pública.

A fama e o poder, como se sabe, fazem milagres: aos olhos das belas alemãs, Goebbels passou de fracote medonho a rapagão formoso, engatando frequentes romances com belas vedetes. Retribuiu o prestígio dedicando lealdade inabalável ao Führer – tanto que homenageou o patrão batizando todos os filhos paridos pela esposa oficial, Magda, com nomes que começam com “H” (Helga, Hilde, Hellmut, Hedda, Holde e Heide).

O biógrafo considera essa posição de poder um tanto singular: “Embora ele certamente tenha sido a figura dominante da propaganda nazista, nunca conseguiu controlar absolutamente o aparato. Medido por seus próprios padrões de qualidade, no fundo não foi tão longe”.

Mas a censura e o controle foram longe naquele ambiente nazista. Sem Goebbels, Hitler provavelmente não seria uma “marca”, nem a política nazista teria tido o alcance que teve. Mesmo não tomando decisões-chave, Goebbels defendeu tudo o que se fez. E agia com os olhos na Alemanha e no Führer. Sem tolerância a vozes dissonantes.

Quando este atacou “corruptores da arte”, livrou-se do compositor Paul Hindemith. Goebbels também demitiu Richard Strauss depois que a Gestapo interceptou uma carta dele para o escritor Stefan Zweig, na qual dizia fingir colaborar com o regime. Estatizou o cinema. Proibiu os cabarés. Salvo as de Shakespeare, as peças estrangeiras foram banidas do teatro na Alemanha.


Hitler, um enviado de Deus

A relação com Hitler deu certa estabilidade à sua vida, conta Longerich. “A profunda dependência psicológica com relação ao Führer, o seu amor por ele, que Goebbels confessava repetidamente sobretudo nos primeiros anos da relação, foi o mais propulsor de sua carreira. Ele atribuía a Hitler qualidades de liderança sobre-humanas, considerava-o enviado de Deus”.

Goebbels ficava impressionado com a enorme força de nervos com que Hitler enfrentava as situações de crise ou infundia confiança nas circunstâncias mais difíceis e admirava sua capacidade de desenvolver visões políticas de grande alcance – atributos que faltavam em Goebbels.

Hitler não tardou a se dar conta da dependência psíquica do subordinado, conta o biógrafo de Goebbels. Usou-a sistematicamente nas duas décadas de sua relação. Sabia que, com os elogios, o estimulava aos feitos mais extraordinários; com pequenos gestos de distanciamento, jogava-o em desespero profundo

Ele se fortaleceria no chamado esforço de guerra total – o conceito instaurado nos últimos meses da Segunda Guerra – e também na dissolução da estrutura hitlerista. Vendo a queda de seu ídolo maior, passou a se sentir maior, mais útil e mais importante.

Como se sabe, o suicídio de Hitler provocou também a morte da família Goebbels. O casal Joseph e Magda estava decidido a “pôr fim a uma vida qeu para mim pessoalmente, não tem mais nenhum valor se eu não a puder usar a serviço do Führer e ao seu lado”, conforme as palavras de Goebbels exibidas em nota. Essa decisão era expressa também em nome dos filhos, “que ainda são muito jovens para poder se expressar, mas que, se já tivessem idade para tanto, participariam incondicionalmente desta decisão”.

Vinte e quatro horas depois do suicídio de Hitler e sua mulher Eva Braun, Magda e Joseph Goebbels assassinaram os seis filhos e acompanharam Hitler na morte. Foi o ponto final desesperado a uma vida de identificação incondicional com Adolf Hitler.

Como afirma Longerich, com o gesto Goebbels “fixou para todo o sempre a relação especial com seu ídolo tal como ele a enxergava”. E, ao final, “a mentira da sua vida havia triunfado”.

HITLER

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