Crueldade nos porões

Coronel Paulo Malhães relata à Comissão da Verdade técnicas para ocultar cadáveres de presos políticos em prisões clandestinas como a Casa da Morte

Postada em: 26/03/2014 16h19m
Em depoimento à Comissão Nacional da Verdade, o coronel reformado do Exército Paulo Malhães, 76 anos, admitiu ontem que torturou e matou militantes nas prisões clandestinas da repressão, como a Casa da Morte de Petrópolis.

“Quando o senhor vai se desfazer de um corpo, quais são as partes que podem determinar quem é a pessoa? Arcada dentária, digitais e só”, respondeu ele aos questionamentos de José Carlos Dias, membro da CNV. “Quebrava os dentes. As mãos, não (eram cortadas). Cortavam-se os dedos. E aí se desfazia do corpo… Eu não era tão especialista assim, existia gente mais especialista do que eu”, disse.

Os guerrilheiros assassinados eram aqueles que, após serem presos, não concordavam em trabalhar para o Exército como agentes infiltrados em suas organizações de esquerda. Malhães também explicou que as mutilações nos corpos eram feitas em quartinhos das prisões clandestinas. Questionado diversas vezes sobre quantos presos políticos matou, o coronel disse não lembrar. “É impossível determinar quantos”, afirmou.

O militar também admitiu que não tem nenhum arrependimento dos crimes que cometeu. “Eu acho que eu cumpri o meu dever”, declarou. Questionado sobre seu envolvimento no desaparecimento da ossada de Rubens Paiva, ele disse que recebeu a missão do Centro de Informações do Exército, mas não conseguiu cumpri-la pois foi acionado para outra ação. Em outro momento do depoimento, disse que os restos mortais de Rubens Paiva eram “uma massa morta, enterrada e desenterrada”. “Não tinha mais nada. Nem sei se aquela massa era realmente dele.”

Em entrevista exclusiva ao DIA publicada na última quinta-feira, Paulo Malhães assumiu que foi um dos comandantes da missão que sumiu com a ossada de Paiva em 1973. O DIA reafirma o contéudo da reportagem. O coronel afirmou que seus cinco filhos e oito netos sofreram “sanções” depois que suas declarações foram publicadas.


Protesto na Porta do General

Cerca de 50 jovens do Partido Comunista Revolucionário, do Levante Popular da Juventude e das Brigadas Populares fizeram bastante barulho na porta da residência do general reformado Nílton Cerqueira, em Copacabana, na manhã de ontem. Com um bumbo e sistema de som móvel, eles apareceram de surpresa e atraíram a atenção das pessoas que passavam pela Rua Constante Ramos. Pelo microfone, anunciavam que no número 56 morava “um assassino”, responsável pela morte da Carlos Lamarca e pela tortura de camponeses na região do Araguaia, em Goiás.

Cerqueira era capitão do Exército quando foi enviado ao local com a missão de acabar com a guerrilha implantada pelo Partido Comunista do Brasil (PCdoB). Pelo menos 59 pessoas morreram até o término da campanha, a maioria guerrilheiros cujas ossadas até hoje estão desaparecidas.

O momento de maior emoção no protesto em “descomemoração” ao golpe militar aconteceu quando um casal encenou uma sessão de tortura. Aos gritos, ‘Cerqueira’ perguntava a uma ‘camponesa’ onde estava Lamarca, e ameaçava sequestrar sua família. A moça, ao responder que não sabia, tinha o rosto afundado num balde com água. A ‘sessão’ era retomada após a jovem recuperar a respiração. Cerqueira foi ainda secretário de segurança do Rio nos anos 90, no governo Marcelo Alencar (PSDB).

Ana Miranda, de 65 anos, presa quatro vezes no Doi-Codi e no Carandiru, em São Paulo, esteve na manifestação e ficou feliz em protestar ao lado do grupo. Ela defende a revisão da Lei da Anistia, que impede a punição de torturadores. “O Estado fez tortura sistemática. Dizem que os generais estão velhos, mas são assassinos. Não podem ficar impunes.”



DITADURA
  • Foto: José Pedro Monteiro/Agência O Dia
  • Fonte: O Dia
  • Postador: Edson Gilmar

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